O que é uma Mulher? Sexo, identidade e realidade:
By Ana Durão
O lugar da Psicologia num debate que a cultura tentou silenciar
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Há perguntas que uma cultura saudável deveria conseguir fazer sem se destruir. Uma delas é: o que é uma mulher?
Em Abril de 2025, o Supremo Tribunal do Reino Unido decidiu, por unanimidade, que no Equality Act 2010 as palavras “woman” (mulher), “man” (homem) e “sex” (sexo) se referem ao sexo biológico. A decisão não eliminou a protecção das pessoas trans contra a discriminação. Tornou, porém, visível uma fractura que já atravessava escolas, hospitais, desporto, consultórios e espaços públicos.
Para uns, perguntar é já agredir. Para outros, não perguntar é aceitar o apagamento do feminino enquanto realidade corporal, histórica, simbólica e social.
A Psicologia não deve entrar neste debate como tribunal ideológico. Mas também não deve abdicar de pensar.
Escutar sofrimento identitário não significa confirmar automaticamente uma narrativa sobre o corpo. A transição de género – social, hormonal ou cirúrgica – não deve ser assumida como resposta clínica automática, sobretudo em crianças e adolescentes.
O DSM-5-TR não considera “ser transgénero” uma perturbação mental. O diagnóstico clinicamente relevante é a disforia de género: sofrimento significativo associado à incongruência entre o género experienciado e o sexo atribuído à nascença. Esta distinção é essencial. Evita patologizar a identidade, mas impede que a clínica seja substituída por afirmação automática.
A pergunta clínica deve permanecer aberta: que sofrimento é este? Que relação tem com o corpo? Que lugar ocupa na história familiar? Que relação tem com a vergonha, a puberdade, o trauma ou a rejeição do próprio corpo? Revisões independentes como a Cass Review (2024) tornaram clara a fragilidade da evidência que sustenta intervenções médicas em menores e a necessidade de maior rigor no diagnóstico diferencial.
Em Portugal, esta exigência de rigor esbarra numa lacuna entre o que as instituições profissionais escrevem e o que a prática efectivamente sustenta. As recomendações do Colégio de Psiquiatria da Infância e da Adolescência da Ordem dos Médicos e os pareceres da Ordem dos Psicólogos Portugueses reconhecem, no papel, a importância do diagnóstico diferencial, da exploração continuada e da avaliação da capacidade. Na realidade clínica, porém, a formação específica, a supervisão e os modelos de intervenção raramente preparam os profissionais para resistir à pressão de respostas rápidas. Entre psicólogos, psicoterapeutas, pedopsiquiatras e médicos, persiste o risco de se substituir a compreensão pela adesão a modelos afirmativos, por vezes sem avaliação rigorosa do sofrimento, do desenvolvimento e do contexto. Quando as
Ordens não garantem que os técnicos estão preparados para distinguir identidade, sofrimento e processo desenvolvimental, deixam de proteger o jovem e passam a legitimar a pressa.
Numa leitura simbólica, masculino e feminino não são apenas categorias biológicas ou sociais. São também imagens psíquicas, modos de relação com o mundo, formas de habitar o corpo, o limite, o vínculo e a diferença. Mas integrar simbolicamente o feminino não é o mesmo que ocupar concretamente o lugar da mulher. O feminino tem uma espessura corporal, histórica e simbólica que não pode ser apagada por decreto cultural.
Quando um corpo masculino reivindica acesso pleno ao lugar social, simbólico e político da mulher, ou quando uma rapariga rejeita o corpo feminino e procura ocupar o lugar do masculino, há perguntas legítimas que a clínica não pode evitar: trata-se de integração psíquica, de sofrimento identitário, de conflito com o corpo, de fuga ao sexo de nascença, de procura de pertença, ou de uma resposta a pressões sociais e desenvolvimentais? A pergunta é incómoda. Mas a clínica não existe para repetir consensos. Existe para sustentar a complexidade.
Questionar uma abordagem afirmativa acrítica não é negar sofrimento. É defender que o sofrimento humano merece mais do que uma resposta automática. A questão não é escrever contra pessoas. É recusar a suspensão do pensamento clínico.
Porque onde a cultura exige adesão imediata, a clínica deve preservar o tempo da compreensão.
Referências
American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5th ed., text rev.).
Cass, H. (2024). Independent review of gender identity services for children and young people: Final report. NHS England
Ordem dos Médicos, Colégio da Especialidade de Psiquiatria da Infância e da Adolescência. (2021). Recomendações sobre abordagem da diversidade de género em crianças e adolescentes.
Ordem dos Psicólogos Portugueses. (2026). Parecer sobre o Projecto de Lei n.º 391/XVII/1.ª – Regulação do procedimento de mudança de sexo e de nome próprio no registo civil. https://www.
Supreme Court of the United Kingdom. (2025). For Women Scotland Ltd v. The Scottish Ministers [2025] UKSC 16
World Health Organization. (2019). International classification of diseases (11th rev.)
Ana Durão é Psicóloga Clínica e da Saúde e Psicoterapeuta, Especialista em Psicologia Clínica e da Saúde pela Ordem dos Psicólogos Portugueses, com Especialidade Avançada em Psicoterapia e Certificado Europeu de Especialista em Psicoterapia pela EFPA (European Federation of Psychologists’ Associations). Tem mais de duas décadas de experiência clínica com crianças, adolescentes e adultos, e formação avançada em Neuropsicologia Clínica Pediátrica e Arte-Psicoterapia.
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